Revivendo lembranças (Por Victor Hugo Moreira Moraes)

Há alguns meses, em um sábado, de Pouso Alegre a Santa Rita, Bela Vista e Bom Retiro. Primeira parada: mercado municipal, os inevitáveis e gostosos pastéis; faltou o guaraná Regina para acompanhar.

Lembrei, na década de 50/60, do Antônio Pasteleiro, com sua cesta de pastéis oferecendo pelo centro da cidade; quando perguntado quais eram os de queijo e os de carne (naquele tempo só as duas opções), vinha logo a resposta jocosa: “os que não têm nada dentro, queijo; os que têm uma batatinha, carne!”

Encontrei o Dídi, conversamos sobre os velhos tempos do bar. Na padaria, onde foi o bar, saboreei a pasta flora (arrematei o resto da bandeja: umas dez).

Depois de umas voltas pela cidade, subi, vagarosamente, a “minha rua”, Antônio Moreira, e passei em frente ao número 157, onde foi nossa casa. Em frente à casa do senhor Horácio Capistrano, adversário político de nossa família, mas que se dava bem com meu pai. Depois Alcides Mendes, grande amigo de papai, ambos assíduos frequentadores da “esquina do pecado”. Subindo até o “alto do Zé da Silva” e a antiga farmácia de meu padrinho Adelino, dei uma parada e conversei com o Carlos Romero.

Continuando, segui pelo caminho em direção à Bela Vista (“Capelinha” como os antigos se referiam). Era a estrada que meu pai usava para a sua “Fazenda Bom Retiro”. Em tempo de chuvas, o primeiro obstáculo era o “Morro do Geromo”, agora passei por ele sem notar, depois a região de loteamentos habitados. Subindo a serra, na curva do alto, parei; mas, não se tem mais a vista sobre o vale do Sapucaí. Chegando à Bela Vista, não vi e ninguém deu notícias do bar do “Girdo”. Uma ocasião anunciava “temos mortadela, breve coca cola e chicré”.

Um amigo de papai, o compadre Antenor, aficcionado por caça, sempre andava pela região acompanhado pelos seus cães de caça; chegando à Bela Vista, quis experimentar a tal mortadela. O Gildo não estava e me atendeu um empregado novato que não conhecia e que foi logo advertindo: “mortandela é cara”. O compadre mandou torar um pedação e sacando de sua faca (roceiro, naquele tempo, sempre levava uma na cintura) foi cortando pedaços e jogando para a cachorrada.

Passei em frente ao que foi o “munho do Bepi”, onde, segundo a tradição, as pessoas iam “trocar fubá”; traziam o milho e levavam o fubá, mediante uma percentagem deixada como pagamento de serviço.

Continuando, logo em seguida, o bairro do areião, hoje extensão da cidade e até pavimentado. Passagem sobre o ribeirão por ponte; antigamente passava-se a vau.
Em uma ocasião, o caminhão de meu pai, indo buscar produtos da fábrica de laticínios da fazenda, para a fábrica em Santa Rita, como de costume, levava produtos para a fazenda e para a “Venda do Lazinho”, no bairro Santanal; um desses produtos era… bacalhau; as pessoas de hoje podem não acreditar, mas, à época, bacalhau era consumido pela base da pirâmide social; havia até um dito de menosprezo: “Para quem é, bacalhau basta”. Havia caído uma violenta chuva de verão e tivemos que esperar na Bela Vista. Passada a chuva, continuamos; aboletei-me na carroceria; Zé Seda, motorista de confiança de papai, ensinava o meu irmão Múcio a dirigir. Chegando ao córrego, as águas da chuva o engrossaram e tivemos que esperar para a travessia. O sol, ressurgira quente; eu, com fome, fui tirando lascas do bacalhau, limpando superficialmente o sal, fui devorando; quase que imediatamente veio a sede e prosseguimos; só na venda do Lazinho Bonifácio, fui beber água e até um guaraná Regina.

Saindo um pouco das lembranças, cheguei onde era a venda, não existia mais. Entrei pelo Santanal, em direção ao Bairro do Machados; procurava o alambique do Joaquim Laurindo; deu trabalho para encontrar. Comprei três garrafões de pinga (arrolhados com sabugo de milho) para presentear amigos e clientes de São Paulo, eles adoram as coisas de Minas; digo que a rolha de sabugo é para a cachaça respirar, mas não evaporar. Recentemente, no escritório de uma filial brasileira, o diretor (brasileiro) saiu exibindo o garrafão.
Rumei para o Bom Retiro, em direção à fazenda de meu avô, Tonico Moreira, e a alegria de encontrar amigos de longa data, a Carminha e Rodrigo; ficamos de voltar para um almoço com frango caipira.

Retornando, chegamos à Bela Vista por outro acesso, já na saída para a Fernão Dias.
Esta “Volta ao Passado” foi improvisada; a próxima vou ficar um dia em Santa Rita para andar à pé pela cidade. Mas, de qualquer forma, foi muito boa.

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