Opinião: Era uma vez no Oeste

Já morei em São Paulo, Rio Janeiro e Ribeirão Preto. Estive fora por sete anos e conheci várias cidades. Em todo esse tempo, nunca presenciei um assalto. Talvez tenha tido sorte, mas o que vi em Santa Rita, nos últimos tempos, foi algo inédito na minha vida. Em menos de seis meses, estive em três estabelecimentos comerciais no momento em que bandidos meteram um revólver na cara dos comerciantes e dos clientes, antes de saquearem o local. Na primeira vez, foi em um posto de gasolina. Dois caras em uma moto, apontaram a arma para o frentista e levaram tudo. Na segunda vez, estávamos em restaurante, localizado em uma rua calma da cidade, quando um rapaz encapuzado apontou um revolver para dois professores e apertou o gatilho quando o dono do estabelecimento avançou sobre ele. Por sorte, a arma falhou. Correu para um Chevette estacionado na rua de cima e a PM foi acionada. Com o dono do restaurante em pânico e os clientes roubados, ouvimos a primeira frase do policial: “Quanto está o jogo?” Ficaram uns vinte minutos no local. Não soubemos de buscas pelos bandidos ou algo do gênero. O mesmo estabelecimento seria invadido novamente, alguns dias depois, com outro bandido de arma em punho. Desta vez, entretanto, o rapaz viu algo que o repeliu. “Nunca mais volto aqui.” – disse a si mesmo, antes de subir na moto, estacionada do outro lado da rua, e tentar dar a partida. A moto não pegou e o bandido ficou ali, tentando, por alguns minutos, enquanto as pessoas que correram para fora, voltaram novamente para o recinto. Quando viu que a moto não ia mesmo funcionar, o criminoso desceu o morro com ela desligada e desapareceu, calmamente. Daquele dia em diante, o dono estabelecimento passou a viver com medo. Fecha as portas com os fregueses dentro e paga segurança particular, além de motoqueiros que fazem ronda no bairro. Daí eu pergunto: Vale a pena? Que cidade pacata do interior é essa onde os comerciantes não tem sossego para trabalhar? Jogamos mesmo a toalha e chegamos à conclusão de que não há saída contra a violência em Santa Rita do Sapucaí?

Ontem, estava em um restaurante da cidade quando o garçom começou a recolher uma porção que havia acabado de chegar. “O que é isso?” – perguntamos. “Vou embrulhar pra vocês levarem. A dona do restaurante vai fechar. A cidade está sendo assaltada em vários pontos.” Soubemos, então, que um outro restaurante havia acabado de ser submetido a um arrastão. Os clientes foram todos assaltados e os criminosos deram tiros pra cima. Uma lanchonete também foi invadida, poucos minutos depois. A cidade parecia entregue nas mãos dos bandidos.

“Honestamente, hoje eu quase não abri a minha lanchonete. Você vai perdendo o tesão de trabalhar. Fica com medo de, a qualquer hora, ser assaltado. Isso é vida? Ontem eu tive a certeza de que seria assaltado por dois caras, em uma moto sem placa, que passaram em frente ao meu comércio, várias vezes. Só não entraram porque tinha gente na porta. Aí eu pergunto: Dá gosto de trabalhar assim?” – disse o comerciante Cássio Generoso, cuja família foi vítima de um assalto violento, há alguns meses.

Nas redes sociais, os internautas não têm outro assunto senão a incapacidade de nossas autoridades em colocar fim ao velho oeste que se instalou por aqui. Por incrível que possa parecer, os valores andam tão invertidos que ainda há quem defenda os criminosos, como se estivessem desempenhando uma profissão qualquer. “Vocês que defendem a marginalidade e a delinquência, deveriam parar e pensar nas centenas de pessoas que estão passando por assaltos em Santa Rita. Nesses tempos de crise, ninguém tem dinheiro para ficar repondo o que um marginal rouba! Estou inconformado com a situação de Santa Rita!” – desabafou um internauta.

“Como é duro engolir a seco o filho da puta que colocou um revólver na minha cabeça e que ainda reaparece, na maior cara de pau, para comprar um Dogão no meu estabalecimento e eu sou obrigado a servir esse lixo humano.” – desabafou o comerciante Devanil Carvalho, vítima de um assalto à mão armada, há alguns meses.

Diante da situação incontrolável e da falta de confiança de que este quadro será alterado, pergunto: Caberá ao cidadão comum ter que fazer justiça com as próprias mãos? A polícia está desempenhando o seu papel em busca de soluções para os nossos problemas? O prefeito faz um estudo aprofundado para evitar o crescimento desordenado do município e avalia a capacidade da PM em realizar cobertura nos novos bairros, sempre que realiza doações de lotes? Ainda temos que levar os criminosos para Pouso Alegre, nos finais de semana, deslocando duas viaturas que passam a noite na delegacia? Será que os comerciantes terão que trabalhar de portas fechadas ou fechar as portas por conta da incapacidade de obter segurança em uma cidade com menos de 40 mil habitantes? Mortes. Assaltos. Roubos. Violência. Era uma vez no Oeste.

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