Quando o Inferninho incendiava Santa Rita do Sapucaí

A primeira vez em que soube da existência do inferninho foi, precisamente, em 17 de julho de 1994. Naquela noite, os santa-ritenses saíram às ruas para comemorar o tetra do Brasil diante da Itália de Baggio e, como não poderia ser diferente, a praça foi o ponto de encontro de uma molecada sem internet, Whatsapp ou qualquer outra forma de se aglutinar que não fosse absolutamente orgânica e espontânea.

Os tempos eram outros. Para encontrar alguém era preciso sair às ruas, correr os bares e lanchonetes e correr o risco de levar um fora de uma patricinha boca aberta. Isso não queria dizer que fosse pior, muito pelo contrário. A ausência de Tinder, Tampa da sua Panela, Facebook ou algum aplicativo que fizesse o serviço, tornava necessário que as pessoas se encontrassem, trocassem ideias e se relacionassem da maneira mais primitiva possível. Daí surgiram muitos cabras bons de papo, donos de uma lábia de fazer inveja e que usariam os truques aprendidos no Inferninho, fosse no amor ou na guerra.

Naquela noite de julho que deveria estar fria, mas que – na minha memória – retorna quente como uma cena de Dante, foi que vi as luzes do “Inferninho” alumiarem pela primeira vez, os pés do antigo Calçadão. Não havia restrição de tribo ou idade… Quando o segurança (seria o Messias?) percebia que já estava saindo gente pela varanda, botava o braço na frente da roleta e não tinha quem contrariasse 120 quilos de muque construído nas barras improvisadas da academia do Varte.

As famosas dancinhas, aquelas em que todo mundo fazia junto, não eram novidade naquela altura. Anos antes, o lendário Levi do Rap já comandava o salão com seus passos ensaiados debaixo de bem menos do que meia luz. Isso ainda no Buffonete.. que também foi Bar do Bola e Kpelinha. No Inferninho as dimensões eram maiores… Era mais gente dançando, várias rodas de coreografias, iluminação, cheiro de perfume Taty que se misturava ao gelo seco e uma iluminação de botar inveja ao Zé da Rave. “Oh lamour!!!” – e a molecada ia ao delírio. Bem longe de Youtube, Napster ou Spotify, pra poder ouvir música boa era preciso pedir na rádio ao Tragédia e Reginaldo ou frequentar a pista do inferninho! Era lá que as coisas aconteciam…

De volta ao salão do Clube, local onde – décadas antes – se apresentara a famosa Orquestra Jazz Brasil, o que rolava naquela altura era o Dance, o Nacional (“Indignação… Indigna…”), um comportado funk carioca (“Eu só quero é ser feliz! Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é!”) e meia dúzia de músicas lentas (do disco “Que rei sou eu?”) para tirar as meninas pra dançar! E não é que todo mundo dançava colado e se amassava nos cantinhos? Tinha gente que esperava o baile todo só para aproveitar o finalzinho. E não desperdiçava…

Os bailes no Inferninho passaram a acontecer, religiosamente, aos domingos. Começavam logo depois da missa e terminavam antes da meia noite. As músicas eram quase sempre as mesmas. E tinha gente que ficava só espiando do segundo andar (camarote? rs) e quem usava Le Cheval para piscar no escuro, quem estava ali para caçar briga ou quem só queria namorar. “Naquela época saíamos e ninguém mais nos achava. Tempo bom. Não tinha celular para filmar a prova do crime. Morais era quem pegava as barangas!” – disse um internauta que não quis se identificar.

Não sei precisar quando foi que o lendário Inferninho começou a esfriar. Com o passar dos anos, surgiram outros pontos, como o Columbia (que depois virou Milenium) e o lendário ShowBar. Também vieram o Caverna, o Tulipas e o Parada, mas isso já é assunto para uma outra história.

Soltei o assunto nas redes sociais para colher informações com a galera daqueles tempos e me lembrei de histórias contadas por pessoas que já são pais de crianças com a idade que tínhamos naquela altura. Mais de meia vida passou, desde a última vez em que estivemos sob as chamas do Inferninho, mas algo de nós ficou lá. Lembrança de uma época em que nos preparávamos para cair no mundo, sem imaginar o quanto seria bom, 20 anos depois, recordar tudo aquilo.

(Por Carlos Romero Carneiro)

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