Ao amigo Fernando Cabeça (Por Carlos Romero Carneiro)

“Eu nunca mais fiz amigos como aqueles que tinha aos 12 anos de idade. Mas, Jesus, quem é que fez?” – assim termina um dos meus filmes favoritos, “Conta comigo”, baseado em um conto de Stephen King. E hoje lembro um dos meus grandes amigos, Luiz Fernando de Melo Andare, o Cabeça, apelido que herdou do pai, Ricardo, a quem ele sempre se referia como Paizão.

De tudo o que trago da vida, talvez a nossa amizade seja uma das memórias mais antigas. Era a primeira vez que eu saía de casa sozinho, talvez com 4 ou 5 anos, e encontrava uma correria em frente à sua casa, na rua José Palma Rennó. Lá estava a molecada com capas de Superman feitas de toalha de banho amarradas com prendedores de roupa. Fernando era inocente, gentil e cheio de amigos. A molecada toda se reunia em sua casa, a mais simples e também a mais calorosa da rua. Ninguém batia para entrar, ninguém hesitava em filar um rango ou fazer daquele espaço o ponto de encontro de um grupo grande de amigos. Nas paredes, quadros de Juscelino Kubitschek, inscrições que remetiam aos reis magos para “chamar dinheiro”, um grande poster do Botafogo (paixão de seu pai) e uma pequena televisão com um plástico verde na tela para “ver Chapolin em cores”. Era ali que a trupe mais barulhenta, cada qual com o seu apelido, se reunia para fazer bagunça, organizar mana-mula, futebol, pique de vara, trolinho e esconde-esconde ou se preparava para apertar campainha e sair correndo.

Em torno daquela casa, vivia Ricardo Foca (cuja particularidade era uma gagueira que perdeu na vida adulta), Mário Vaca que sempre usava uma camisa de goleiro que ganhou do pai, Aldo que sonhava em ser caminhoneiro e acabou realizando o sonho depois de muitos anos, Juninho que se tornaria jogador de futebol, Fábio Mazaroppi (mais velho e espécie de mentor das artes da molecada), Léo Lambari apelido que ganhou por ser bom nadador, seu irmão João Henrique – o mais carismático da turma, os manos Tatinha e Dedé, Paçoca, mais um Dedé e um tanto de crianças que viviam em torno da trupe mais bagunceira das redondezas.

Um dos momentos mais marcantes desta época foi quando assistimos “Indiana Jones” pela primeira vez. Dali em diante, o termo “fazer aventura” virou corriqueiro e partíamos rumo ao Cruzeiro, Vintém e Bela Vista. E dependurávamos em árvores… E pegávamos “rabeira” nos caminhões que partiam da Cooperativa… E pulávamos no capô dos carros estacionados para fingir acidente… E tomávamos tiro de sal… E mexíamos com as meninas da vizinhança… As crianças de hoje são santas. (Tomara que o meu filho não leia isso…)
E por falar em meninas, foi ideia minha e do Cabeça fazer um bailinho no Restaurante Pops para ver se rolava alguma coisa. Fomos ao Supermercado Romerão, compramos Tubaína, bolacha Maizena e Doce de Leite em barra (canapé de bolacha com doce de leite fica uma verdadeira b#$@%) e armamos todo o esquema para convidar as garotas da escola. A festa foi um sucesso e acabou se tornando bem comum dali em diante. Fizemos muitas outras nos meses seguintes, mas o máximo que rolava era uma dança sem grandes emoções.

Outro episódio marcante para nós foi quando Fernando tentou passar pela portaria do clube com uma toalha na cabeça (ele não era sócio) e foi barrado pelo Chiquinho. Passamos a tarde nadando na fonte da praça, indiferentes ao olhar de quem passava.
E as artes não paravam de acontecer… E nós fugimos de casa, fomos até a avenida do colégio e voltamos… pulamos o muro do quintal para roubar goiabas da dona Edmeia… E fizemos campeonatos de botão que demonstravam que, em matéria de futebol, eu era ruim até em tabuleiro. Certa vez, cheguei com um time da seleção brasileira, com direito a bandeirinhas em torno do estrelão e tudo… e tomei uma surra do Juninho que jogava com o time do Flamengo. O rapazinho que humilhou a seleção canarinho (profecia do 7 a 1?) seria ninguém menos do que Roque Júnior, pentacampeão mundial.

Nos campeonatos de futebol de campo, Cabeça era o goleiro. Quando o nosso time foi para os pênaltis contra um arranjado da várzea, o mais temido da cidade, ele defendeu todas as bolas, dando a nós uma vitória inédita, relembrada por meses em frente ao grupão.

Não sei se antes ou depois destas passagens, Fernando perdeu o pai. Aquilo foi um marco não só para ele, como também para nós que nunca tínhamos tido contato com a morte. Ele, claramente, perdeu muito da alegria e cresceu à força. Para criar três filhos pequenos, sua mãe vendia sacolé, fazia faxina e lavava roupas. Ele foi o primeiro de nossa turma a trabalhar. Foi um tempo difícil e até hoje me entristeço, mas sei que ajudou a moldar o seu caráter.

Mas também fizemos muitas aventuras depois disso… Em uma viagem ao Rio de Janeiro, participamos do Clube da Criança na TV Manchete e até ganhamos beijo de uma assistente de palco da Angélica. Muitos anos depois, soube que era a Giovanna Antonelli. Né não, Cabeça!?

O tempo passou, cada um foi para seu canto. A adolescência acabou distanciando a turma, mas este mesmo tempo que faz a infância parecer outra vida, também mostrou o quanto a amizade é importante. Neste momento em que já cruzamos boa parte do caminho e em que meu filho completa 14 anos, relembro aqueles momentos e dá saudade dos velhos amigos. No Facebook, nosso ponto de convergência, Cabeça vive dizendo que vai escrever sobre nossas aventuras. Sinto muito, meu caro. A reverência quem faz sou eu.

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