Quando Dr. Kallás salvou nossos filhos

(Por João Teles e Odiléa)

Não é de minha índole tecer comentários elogiosos a pessoas cuja dedicação profissional naquilo que fazem, se revela com zelo marcante, ainda porque, é de minha opinião de que: quem faz algo em face da profissão que abraçou, deve fazê-lo bem feito. Hoje, entretanto, me curvo prazerosamente ante minha própria opinião, para hipotecar justiça espontânea a um profissional médico, lídimo “gigante do seu tempo”. Para tanto, necessário se torna, retornar a uma tenebrosa e fatídica tarde (13:30 hs.) de 17 de setembro de 1977, um sábado. Na inocência da traquinagem de um garoto viçoso e bonito, que naquele dia completava oito anos e meio de idade, que se esquivando de um programa de desenho infantil na televisão preto e branco da época, convidou sua irmã de cinco anos e meio e, num momento de inadvertência de seus pais que se trocavam no quarto para um apadrinhamento de casamento, o garoto apanha um tubo plástico de álcool (que na época vinha apenas com um minúsculo orifício por onde o líquido era esguichado) e, com sua irmã pela mão foram felizes colocar fogo em um pequeno formigueiro de formiga “ruiva” no quintal. Ao esguichar o líquido para o formigueiro, restou um pequeno rastro do fluído no piso de cimento seguindo até o tubo de álcool. Ao colocar a chama do fósforo nas formigas o fogo caminhou pelo risco de álcool e encontrou o tubo cheio, que explodiu lançando álcool em chamas nas duas crianças que se tornaram tochas humanas: ela com fogo nos braços, uma perna, mãos e mais algumas partes do corpo em menor escala; ele com todo o tórax, o rosto, olhos, cabeça, mãos, pescoço, ombros, orelhas e mais algumas partes, num total de 45% do corpo em chagas acesas, crestando-lhes a jovem pele. No desespero dos gritos roucos, o garoto correu para o quarto dos pais onde, no ímpeto do instinto paterno, o pai arrancou a colcha que cobria a cama, envolveu e abafou o corpo em chamas do filho; a filha, também em chamas, correu para o quintal da casa onde, aos gritos foi alcançada por uma jovem que lhes servia de babá e lhe apagou as chamas. O mundo do casal de pais desabou em uma triste estrada que, tudo fazia crer, lhes conduziria os filhos a um desenlace final da vida que mal desabrochara. Mas eis que, pela graça de Deus, surge em uma curva da estrada do desespero, uma figura impoluta, vestida de branco e imbuída da mais pura e humana dedicação à profissão que escolhera, o jovem médico DR. ELIAS KALLÁS.

Socorridas em um primeiro momento em nosso Hospital Antônio Moreira da Costa, pelo Dr. Wilfredo Rojas Martinez, foram em seguida entregues aos cuidados do Dr. Kallás, com apoio pediátrico do Dr. Manoel Francisco de Paiva, então residindo recentemente em Santa Rita. Dr. Kallás, com a desenvoltura, devotamento e a hoje notória capacidade profissional que lhe são marcas indeléveis, não se prestou apenas à dedicação médica aos pequenos pacientes, mas, principalmente, humanizando e acalmando o desespero do casal de pais, que, permeando os dias com as orações na Capela do Hospital, a aflição na pequena janela externa no corredor da UTI e as idas desesperançadas à residência do Dr. Kallás onde, recebidos cordialmente por sua esposa D. Lydia ou pelo próprio médico, ali recebiam provas da certeza do que estava sendo executado no campo da medicina de queimados, complementadas com palavras de conforto e dedicação humana do médico, que sempre realicerçavam as esperanças dos aturdidos pais. É de se destacar a enorme autoconfiança do Dr Kallás, comprovada em um momento crucial em que um dos outros médicos, um tanto desanimado com o quadro clínico do principal paciente, sugeriu ao médico titular que o acompanhava: “Por que não levá-lo para São Paulo, onde existem melhores recursos? ” Ao que Dr. Kallás, com a segurança de quem confia no que faz, lhe responde: “ “Não, ele pode não aguentar a viagem! Vamos deixá-lo aqui mesmo, onde temos condição de recuperá-lo.” E provou o que disse!

doutor Kallás (Centro) e filhos.
Doutor Kallás (Centro) e filhos.

Nosso filho permaneceu, nessa primeira internação, com risco de vida, por quase dois meses, havendo nesse tempo sofrido inúmeras intervenções cirúrgicas, habilmente executadas pelo Dr. Kallás. Em um dado momento, quando as queimaduras começaram a cicatrizar, a parte inferior do queixo de nosso filho ficou colada à parte superior do colo, suprimindo-lhe os movimentos do pescoço e cabeça, motivo de aumento do desespero dos pais. Mais uma vez se destacou a enorme segurança profissional do médico acompanhante. Disse ele: “Acalmem-se, vou fazer uma incisão em formato de “L”, trazendo parte da pele das costas, envolvendo e liberando o pescoço e vai dar certo.” E deu certo. Tão certo que mais de um cirurgião plástico (a quem posteriormente recorremos por sugestão do próprio Dr. Kallás), a exemplo do Dr. Assumpção, cirurgião plástico de Belo Horizonte, elogiaram o serviço médico, surpreendidos pela excelência do trabalho de cirurgia plástica originalmente feito. Dr. Kallás não era cirurgião plástico.

A humanidade transcendental desse médico na assistência aos nossos filhos, especialmente o filho, e aos seus pais no desespero das circunstâncias da época, foi de tal modo envolvente, chegando ao ponto de mandar fornecer vestimentas adequadas ao pai do menino para que assistisse aos profundos curativos cirúrgicos executados com maestria dentro da sala cirúrgica do hospital, com explicações detalhadas ao atento pai sobre o que estava sendo executado no corpo chagado de seu filho. O pai a tudo assistia, com os olhos embaçados em lágrimas, mas com a esperança renovada pela segurança e destreza profissional do emérito condutor dos trabalhos.

Não mencionei ainda o procedimento humanitário do Dr. Kallás também na questão financeira de sua assistência médica aos dois pequenos pacientes, nosso casal de filhos. Diante do longo tempo de internação e da complexidade dos procedimentos adotados para a recuperação das crianças e, consequentemente, elevados custos e despesas hospitalares, Dr. Kallás, mais uma vez, nos surpreendeu em sua grandeza humana: “Vocês me pagam, parceladamente, e eu vou tentar junto ao INPS (na época era diferente a assistência do mesmo) para minimizar as despesas hospitalares em acordo com o hospital. ” Assim foi feito.

Nunca nos foi oportuno relatar os fatos em detalhes, nem agradecer condignamente ao Dr. Elias Kallás pelo tanto que nós e os nossos filhos lhe somos gratos por sua participação na recuperação e quase renascimento, especialmente de nosso filho marcado pelo fogo. Nossa filha recomeçou a aprender a andar, em lágrimas pelo desconforto, no pequeno jardim interno que o hospital mantinha na época. Supervisão do trabalho, Dr. Kallás.
Ficaríamos mais felizes, do que já somos, se ele e Da. Lydia tomassem conhecimento desta nossa manifestação. O fazemos de público e espontaneamente, para que o feito de quase 39 anos atrás desse insigne e humano profissional médico, possa ser juntado ao enorme “ramalhete” de feitos semelhantes que, por certo, estão a alicerçar seus OITENTA ANOS de profícua existência em favor de minorar sofrimentos de muitas pessoas ao longo desse tempo. Nossos filhos, hoje, são física e emocionalmente perfeitos: ele, engenheiro, casado, dois filhos, totalmente incomplexo face às marcas em seu corpo e especialmente em seu rosto; ela, engenheira, casada, dois filhos, completamente incomplexa, ambos felizes e buscando suas realizações pessoais.

Dr. Kallás, de todos os médicos que conhecemos e a quem eventualmente devemos finezas, nós lhe penhoramos de público nesta oportunidade, nosso maior respeito e reconhecimento como o melhor médico nosso conhecido, do qual as circunstâncias nos levaram a usufruir dos conhecimentos profissionais em medicina e especialmente humanitários.

7 COMMENTS

  1. Caramba! Lindo e intenso o que meu querido Pai relatou acima. ainda acho que ele deveria escrever um livro sobre qualquer tema (tenho certeza de que seria um best seller!). Não poderia deixar de reforçar aqui minha total concordância com tudo que Papai escreveu acima. Acabo de ler esse texto em um shopping de SP onde fui almoçar, tive que sair correndo e voltar para o carro para terminar de ler, pois, não é uma imagem muito bonita um Homem de 46 anos quase 1,90 de altura repleto de cicatrizes no rosto se debulhando em lágrimas no meio de um shopping (imaginem que cena!). Dr Kallás quero que saiba de minha profunda gratidão que tenho pelo Sr. , pelo Dr Manoel, Pelo Saudoso Dr Wilfredo e tantos outros competentes profissionais que atenderam a mim e minha querida Irmã Poliana nessa passagem tão marcante de nossas vidas. Quero também agradecer o carinho extraprofissinal que o Sr e D Ligia tiveram conosco, Papai e Mamãe (lembro de uma vez que D. Lygia “pegou emprestado” alguns carrinhos de ferro de seu filho Henrique , esterelizou-os adequadamente e levou até mim na UTI para distrair minha dor. Incrível isso!!!! Todos esse cuidados nos proporcionaram crescer sem marcas emocionais e seguir em frente com nossas vidas. A, e sobre as cicatrizes externas; certa vez uma Amiga me disse que, Deus resolveu marcar a Mim e minha Mana para “não nos peder de vista no meio de tanta gente”, e pelo andar da carruagem acho que ela tinha razão! Um Grande e Sincero Abraço a todos ! Públio de Paiva Teles

  2. ….não sei qual texto é o mais lindo, o do pai ou do filho….. para quem teve a mesma idade e “viu” e “ouviu” o que se falava em uma cidade na época pacata e tranquila foi algo realmente muito triste, hoje lendo tais depoimentos vemos que realmente o que vale é a dignidade e vida correta que levamos, afinal o que são “marcas”?…. quando se olha uma foto de uma família completa, feliz e de boa índole!!! isso sim é uma “marca”…. quem dera todos tivesses “marcas” assim…..

  3. Que texto incrível e emocionante!
    Impossível conter as lágrimas…
    Hoje nos deparamos algumas vezes com médicos frios e insensíveis nos hospitais e consultórios. Que Deus permita que quem abraça a profissão médica tenha muito mais que só conhecimentos teóricos. Que tenha amor, sensibilidade, humanidade. Que tenha alma de um ” Dr. Kallas” em seu coração.

  4. Só uma sugestão…coloquem o nome da equipe de enfermagem que cuidaram diretamente de vcs. A equipe toda desenvolveu um trabalho digno e com amor ao próximo, o resultado disso voce observa no dia da alta hospitalar.

    Parabéns equipe do Dr. Kallas e parabéns a voces que tiveram vontade de viver.

  5. Este belo texto é muito importante para alertar todos os pais quanto aos cuidados com as crianças. Mesmo com todo cuidado, nunca se sabe o que podem fazer.
    Realmente o Profº João Teles possui o dom da escrita e da oratória com excelente didática há tempo. Me lembro muito bem de suas aulas na ETE de Introdução ao Direito, das explicações das Leis Trabalhistas. Até hoje me parecem todas tão claras que fico “preocupado”. Se mudarem estas leis eu terei enorme dificuldade de reaprendê-las.
    E por sorte a cidade sempre contou com bons médicos. Parabéns a todos!

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