Entrevistamos Dona Alda Pinto Costa, a melhor amiga de Sinhá Moreira

Tivemos a oportunidade de bater um papo com Dona Alda Pinto Costa e acessamos informações nunca antes publicadas sobre a intimidade da grande heroína de Santa Rita do Sapucaí e do cotidiano local. Confira, a seguir, esta entrevista inédita.

Como foi o retorno de Sinhá Moreira para Santa Rita?

Quando Sinhá Moreira chegou do Japão ficou em São Paulo. Infelizmente, ela não foi feliz no casamento. Foi tudo arrumado… Era desejo do pai e sua mãe queria alguém de alta categoria para a filha. Ela voltou muito triste. A primeira pessoa para quem ela contou foi para o meu pai. Foi durante o casamento do Pedrinho Moreira com a Glorinha Junqueira. Ela disse que não havia dado certo e que o marido era muito impertinente, econômico e sistemático. Estava do seu lado quando ela contou que o Tonico a obrigava a jantar café com leite para economizar. O que aconteceu depois foi que a Dona Maricotinha (tia) fez uma visita a ela. Sinhá chorou muito e contou o que estava passando. Sinhá disse, inclusive, que havia tomado um tapa, porque ele era muito ciumento. Sinhá tinha muitas amizades, mas ele a proibia de ir às festas. Com isso, ela foi enjoando… Ficou 13 anos casada até decidir voltar para cá, no início dos anos 40.

Como a cidade reagiu?

Foi o primeiro desquite em Santa Rita, logo a filha do Chico Moreira, mas Sinhá não teve receio de falar sobre o assunto. Seu sonho era casar com o Olindo, mas resolveu fazer a vontade do pai. Eu acho que o Chico Moreira se arrependeu porque, poucos dias antes do casamento, mandou chamá-la e falou: “Olha, minha filha, se você não quiser casar com o Tonico, pode desmanchar que eu não faço questão.” Ela respondeu: “Já está tudo certo, eu dei a minha palavra e vou me casar.” Coitada… casou pra sofrer.

Daí ela iniciou as obras?

Quando ela voltou, o Chico Moreira disse para o meu pai que era preciso dar um amparo a ela. Por isso, a deixava fazer o que quisesse. Como a Dona Mindoca já era falecida, Sinhá teve carta branca e começou fazendo a Vista Alegre. Era um projeto de 100 casas para pessoas de baixa renda.

E como era o Chico Moreira?

Era um homem muito enérgico, mas muito simpático e agradável. Eu almoçava muito lá então convivi bastante com eles. De manhã, ele ia ao seu banco, depois para a fazenda do chalé, almoçava e deitava. Ele acordava de tarde e ficava no alpendre de casa. As pessoas mantinham distância. Só o procuravam com hora marcada, sempre à noite. Ele também ia muito ao mercado de manhã e fumava bastante. Ele teve um derrame que o matou em três dias. Sofreu derrame no dia primeiro e morreu no dia 3 de janeiro.

E dona Mindoca?

As mães eram muito mandonas. Tanto a Maricotinha quanto a Mindoca gostavam de tudo do jeito delas. Mas eram muito chiques, com vestidos vindos do Rio de Janeiro, cheios de bordados e miçangas.

De óculos escuros, dona Alda posa entre Bilac Pinto e o deputado Carlos Lacerda. Logo abaixo, dona Sinhá Moreira.

Como começou sua amizade com Sinhá Moreira?

Ficamos próximas, quando eu fui trabalhar na Eletrônica. Eu estava prestes a ser contratada e perguntei à Sinhá: “Mas será que eu dou conta?” E ela respondeu: “Dá, sim! Você escolhe onde quer trabalhar e contratamos você!” Eu só saí quando ela morreu.
Todos os dias ela ia examinar as obras, passava pela Secretaria e me pegava para dar uma volta. Com isso, ficamos muito próximas e fizemos várias viagens.

Para onde viajavam?

De vez em quando íamos para Campos do Jordão. Ela cuidava de umas três doentes e ia visitá-las. Na última viagem que nós fizemos, vi uma paciente mocinha, fiquei contente por estar corada e a Sinhá falou: “Não é isso não… ela está assim por causa da doença.” Ela cumprimentou a moça… a menina agradeceu muito pela ajuda e nós viemos embora. Dali, fomos para Rio de Janeiro e São Paulo. Em outras ocasiões, íamos também para São Lourenço, Campos do Jordão ou Poços de Caldas.

Qual era o projeto de Sinhá para a ETE, no início?

A grande preocupação dela era arranjar casamento para as moças. Dizia que os moços se formavam, iam embora e só voltavam casados. As moças ficavam aqui e acabavam solteiras. A intenção era arranjar casamentos. A escola era para ser no Esguicho, mas ela achou que ali era muito morro, que não ia ficar bom e negociou aquele lote com o senhor Toninho Moreira em troca de alguns lotes espalhados pela cidade. A pedra foi lançada no Esguicho, eu estive lá, mas não me lembro direito. Na visita do Ministro Clóvis Salgado, serviram um grande banquete para os visitantes.

Ao centro, Sinhá Moreira com amigos, enquanto vivia no exterior.

E a vinda dos Jesuítas?

Em seu testamento, ela colocou que só aceitou tocar o projeto porque os Jesuítas toparam assumir. Caso eles não aceitassem, procuraria outra companhia porque ela buscava direção espiritual. Sua ideia era uma educação integral. Oferecer cuidado intelectual, mas também espiritual.

A senhora esteve presente no baile da primeira turma da ETE?

Na primeira turma não teve festa por causa da doença dela. A formatura foi no Clube Santa-ritense porque a escola ainda não estava pronta. A colação, infelizmente, ela não conseguiu assistir porque estava no início da doença. Ela operou em novembro e a formatura foi em dezembro.

Como ela soube da doença?

Em setembro, ela foi ao casamento do Francisco do Bilac. Dias antes, o Moreira falou pra ela: “Sinhá, você precisa cuidar do seu pé. Está muito inchado!” E ela decidiu fazer uma consulta. Eu estava com ela quando o médico constatou que era um câncer. Em novembro, ela operou, mas não adiantava mais nada. Já estava tudo tomado. Ela saiu bem da operação e até veio para Santa Rita. Depois que foi para o Rio de Janeiro, não retornou viva. Morreu em 9 de março. Durou poucos meses. Foi fulminante.

De onde vem o apelido de Sinhá?

Quem colocou o apelido de Sinhá foi uma babá que ela teve. A moça sempre a chamava assim e acabou pegando.

Ela tinha outras amigas?

Ela era muito amiga da Sophia, da Filhinha Viana e da Zilda. Quando formamos um time de Vôlei, ela mandou comprar um uniforme pra gente usar. Na estreia, quase morremos de vergonha, porque era um short curtinho, meio moderninho… Sinhá conseguiu um jogo em Varginha, nós fomos, mas apanhamos tanto que você não acredita! Eram todas profissionais e estávamos só começando. Nós treinávamos no pátio da casa dela, Ainda tem um pátio bom lá.

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