Santa Rita despede-se do grande cantor Orozimbo Silva

Com voz potente e incrível talento para a interpretação, Orozimbo Silva era presença requisitada nos bailes da cidade e nas rodas de seresta que varavam noite adentro. Até hoje, é lembrado por quem viveu a época como um dos maiores intérpretes que a cidade conheceu.

Seu talento foi descoberto na infância: “Se me tornei cantor, devo à Dona Maria José Souza. Ela me viu cantando o Hino Nacional na Escola Normal e espalhou a notícia. ”
Atualmente em Brasília, Orozimbo relembra um dos momentos mais marcantes da época em que viveu em Santa Rita: “Foi na Noite Espanhola dos Democráticos. Eu me vesti de toureiro e cantei no carro alegórico, sentado sobre um Sputnik. Foi algo inusitado, já que o foguete não tinha nada a ver com o tema”. – recorda o artista.

Das recordações que guarda de juventude, recorda das noites que passou na residência do delegado Assumpção: “Quando queríamos cantar na madrugada, tínhamos que pedir a ele. Em troca, fazíamos serestas que aconteciam em sua casa. Só íamos embora ao amanhecer.”

Uma passagem com Assumpção ainda é lembrada por Orozimbo: “Um rapaz apelidado de Lotita cometeu assassinato em Bela Vista e foi condenado a vários anos de prisão. O de-legado me chamava para cantar e lá estava Lotita, trazido pelos guardas para participar das noitadas. Retornava à cadeia pouco antes do amanhecer.”

Naquele tempo, eram comuns as serenatas que começavam por volta de uma da manhã. Acompanhado pelo violonista José do Liquinha e por Gema Grillo, pessoas saíam à janelas, batiam palmas e emocionavam-se com as interpretações.

Presença constante nas orquestras de Allan Kardek e João de Abreu, Orozimbo cantava no Clube Santarritense, no Centro Operário e na Associação José do Patrocínio. Nas folgas, passava por todos os clubes para espiar como estavam as coisas e recorda-se das festas promovidas por Maria Cutuba: “Cutuba promovia excelentes festas juninas, no final da rua do queima. A gente tinha muita amizade com o Dito, mas seus amigos eram meio barra-pesada.”

À frente da Banda Jazz Brasil, Orozimbo teve a oportunidade de participar do último baile para eleição da rainha do Clube Santarritense e conta como foi o momento em que cantou para a Miss Minas Gerais: “Na homenagem à Anelise Kjaer, cantei ‘Violetas Imperiais’, o que fez um grande sucesso. Depois desta noite, toda vez que fazia uma serenata, me pediam para interpretar esta música.”

Além de cantor, Orozimbo gostava de um carteado no bar do Paulo Cleto e passava pelo bar do Paulino para pescar dourado e jogar conversa fora. Em uma das jogatinas no Clube, o cantor botou uma bomba debaixo da mesa e foi ameaçado de morte por um dos jogadores. “Quase me dei mal naquele dia.”

Quando a era dos bailes começou a chegar ao fim, o cantor passou a vender doces em um caminhão comprado de Davi Português. As vendas não iam mal. O rapaz comercializava na região, até receber uma oferta do amigo Carlos Magno Maia Dias: “Eu estava com o Carlos e fui convidado a trabalhar em Brasília. Passei a atuar na Companhia Enérgica e me dei bem na carreira, mas sinto muita saudade dos tempos em que vivi em Santa Rita.”

Depoimento sobre Orozimbo

Carlos Alberto Campos do Amaral, amigo de Orozimbo, falou sobre a importância do cantor para Santa Rita: “Ele sempre foi muito querido. Junto comigo, com o Claitão, Geraldo Adami, Nego Adami, Sapico, José Alfredo e outros, viveu momentos inesquecíveis na cidade. A voz deste homem era a coisa mais bonita do mundo. Cantava no nível de artistas como Orlando Silva e Nelson Gonçalves. Como pescador, fez história. Não era daqueles que só davam banho em mi-nhoca. No carteado, foi uma lenda. Jogava truco com o José Viana, o José Seda, o Júlio Gabriel e com o pai do José Arthur. Tenho muita saudade.”

(Retirado da obra “Almanaque Cultural Santa-ritense Volume 2)

2 COMMENTS

    • Meu pai amado, escolhido por Deus ! Hoje a saudade se faz presente em minha vida, nunca conheci pessoa com tanto amor pra dar. Deixou seu legado incontestável de amor, amizade, lealdade, simplicidade e caráter imensurável! Te amo meu pai!

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