As histórias extraordinárias do professor Manuel Ferreira Colchete Filho

Como foi a vinda da sua família para Santa Rita?

Meu pai trabalhava na estrada de ferro de Pouso Alegre e acabou ficando amigo do Chico Moreira, que era o mandachuva do Sul de Minas. Como o meu pai era o responsável pelas linhas de trem na região, os dois se conheceram quando foi procurado pelo senhor Chico, em busca de um favor. Sua intenção era de que o trem passasse pelo Chalé e pediu que a linha chegasse até lá. Meu pai esticou o trilho até o secador de café e, dali, as sacas iam direto para os vagões, com destino a Angra dos Reis.

É verdade que, na revolução, o seu pai fugiu dos paulistas em uma locomotiva?

A divisa entre Minas e São Paulo era uma montanha, cortada por este túnel. O lado de cá do túnel, desembocava em Passa Quatro. Era um trajeto comprido, quase duzentos metros. Em 1932, meu pai morava em Cruzeiro e trabalhava na Rede Mineira. Acontece que, durante a Revolução, os mineiros que trabalhavam em São Paulo estavam sendo presos pelos paulistas, que tomaram a divisa. Um dia, o meu pai cansou daquilo, chamou o maquinista e perguntou: “Vamos cair fora daqui?” O homem quis saber como e ele explicou: “Vamos enfrentar os homens. Ao chegarmos à boca do túnel, nós descemos o pau na locomotiva e passamos deitados até entrar na montanha.” Quando viram eles, os paulistas meteram bala, mas não conseguiram acertá-los. O problema foi que, assim que a locomotiva chegou em Minas, os mineiros começaram a atirar também. Só pararam quando viram as inscrições RMV na lataria.

Aqui em Santa Rita vocês moravam onde?

Eu morei na segunda das casas gêmeas, perto da estação. Também vivi muito tempo na Rua do Queima. Ali fizemos muito amigos, inclusive o Dito Cutuba. Como meu pai não sabia nadar, quando dava enchente, ele transportava meu pai no ombro para chegar em casa, na chácara.

Você conhece alguma história do Cutuba?

O Antônio Tobias amarrava as mãos e pés do Cutuba com aquele nó de prender bezerro e ele se jogava da ponte no meio da correnteza. Um dia, ele ficou dois minutos desaparecido e todo mundo achou que ele tivesse morrido. Dali a pouco surge Cutuba, no meio do mato, do lado de lá do rio, já todo desamarrado. O Cutuba tinha um fôlego desgraçado e conhecia o fundo do rio inteirinho, desde a prainha até o fundo da rua do queima. Como sabia todos os lugares onde enroscava, uma vez soube que uma mulher abortou e jogou o feto no rio. Ele nem sabia onde a mulher tinha jogado, mas achou o corpo e levou à delegacia. Como conhecia tudo, ia direto onde imaginou que deveria estar.

Ele sempre buscava os afogados, né?

Afogamento era demais. Todo ano alguém morria. Até existia uma lenda na época que dizia que o rio só baixava quando morria alguém afogado. A cobrança do rio era sempre a vida de um santa-ritense.

Qual é a sua teoria sobre a queda da ponte?

Era um momento em que a ponte já tinha caído antes, mas que todo mundo passava de um lado a outro. O próprio sargento do tiro de guerra que, naquele momento, funcionava na Casa do Delfim Moreira, sabia que não se pode produzir cadência em cima de ponte e não deixava os soldados marcharem nela para não gerarem onda capaz de derrubá-la. O que aconteceu naquela tarde foi justamente isso. As pessoas começaram a chacoalhar a ponte num mesmo ritmo e geraram uma energia cadenciada que botou a estrutura abaixo.

O senhor já viu um OVNI?

Era mais ou menos uma hora da manhã e eu estava sozinho na rua. Quando eu fui destrancar a porta para entrar em casa, olhei para o céu e vi uma bola de um metro de diâmetro, muito vermelha e pensei: “Lua não pode ser…” Eu fiquei olhando aquilo fixamente até que a bola mudou de cor. Primeiro ela ficou verde e depois amarela. Aquilo, de uma hora para outra, começou a realizar os movimentos mais estranhos que você pode imaginar. Ela subia, virava para a esquerda, descia inclinadamente à direita, tornava a descer e ficou naquela por algum tempo. O que me deixou mais intrigado foi que eu sabia que nem helicóptero e nem balão conseguiriam fazer movimentos como aqueles que eu estava vendo ali. A princípio, a bola era maior que uma lua cheia e ficou menor quando começou a se afastar. Em algum momento, ela ficou amarela, pegou uma velocidade incrível e partiu em direção a Campos de Jordão, São José, aqueles lados. No dia seguinte, eu peguei o noticiário e li que, naquela noite, na Praia Grande, tinha sido visto um objeto voador não identificado. Quando eu encontrei minha namorada, contei a história e fiz ela jurar que não diria a ninguém. Fiz aquilo porque lembrei da história do Boião.

O que aconteceu com o Boião?

O Boião trabalhava no Banco Nacional, naquele mesmo prédio do Hotel Real Palace. Em uma noite, ao vir embora para sua casa no Pouso do Campo, viu uma luz que começou a acompanhá-lo. Quando soube do acontecido com o Boião, o Eluiz do Doutor Edmundo escreveu um artigo, mandou imprimir na Tipografia e pediu para um moleque distribuir pela cidade. No dia seguinte, todo mundo sabia que o senhor Benedito não sei o quê, vulgo Boião, residente na Rua do Queima e funcionário do Banco Nacional, tinha visto um disco voador na noite anterior e que ele estava disposto a contar tudo o que sabia à imprensa. Quando chegou ao banco de manhã, todo mundo queria saber a tal história do disco voador. O gerente precisou deixar o Boião voltar mais cedo, de tanta gente que chegava. Foi por isso que eu pedi pra Janete, minha namorada, para não contar pra ninguém!

Santa Rita chegou a ter aviação de linha?

Santa Rita perdeu uma grande oportunidade. Naquela época, a cidade possuía uma linha da aviação que conectava o município a Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. A empresa chamava NAB, Navegação Aérea Brasileira, e havia um telegrafista da Rede Mineira de Viação chamado João Scudeler que prestava serviços de comunicação. Ele foi professor de telegrafia no início da ETE e atuava em uma sala preparada em um dos quartos do Hotel Mello (atual Real Palace). De lá, Scudeler mantinha contato com as torres de controle e auxiliava aviões perdidos na região. Ele era um gênio da telegrafia… No teto do Hotel havia uma grande antena usada para a transmissão. Duas ou três vezes por semana, o Douglas DC3 pousava no campo de terra. Cabiam doze ou treze passageiros e tinha até tapete vermelho. Era algo que só existia aqui e em Poços de Caldas. Sobre a Escola de Eletrônica havia um sinal luminoso com os símbolos “— • —” que significavam ETE, em código telegráfico. Os aviadores que passavam por aqui sabiam que, ali embaixo, estava a Escola de Eletrônica.

É verdade que a Nestlé era para ter sido instalada aqui?

O que se sabe é que o senhor Juca Mendes havia vendido o terreno onde é o campo de aviação para ser construída a Nestlé. Eles vieram, olharam o local e quiseram comprar. Quando os fazendeiros ficaram sabendo, foram reclamar com o Chico Moreira dizendo que aquilo iria acabar com eles. Naquele tempo os trabalhadores não tinham nenhum direito. O sujeito trabalhava a vida inteira e, quando ficava inutilizado, ia para o asilo. Então eles teriam chamado o Juca Mendes e dito que cobririam a oferta para comprar o terreno. Foi então que eles fizeram o negócio e o terreno foi doado para o Ministério da Aeronáutica fazer um Campo de Aviação. É aquele mesmo terreno que temos lá até hoje.

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