As últimas horas do presidente Delfim Moreira

Ao assumir a presidência, no dia 15 de novembro de 1918, Delfim Moreira havia passado por todos os cargos políticos, a começar pela Presidência da Câmara dos Vereadores de Santa Rita do Sapucaí. Como foi empossado de forma interina, só teve tempo de convocar as eleições. Quando deixou o Palácio do Catete, no dia 28 de julho de 1919, retornou para sua residência, localizada na entrada da cidade (atual Museu Delfim Moreira) e lá permaneceu até julho do ano seguinte, quando veio a falecer.

Veja, a seguir, como foram os últimos momentos do mais renomado habitante da cidade e saiba como a população reagiu diante do falecimento do 10º Presidente do Brasil.

Em novembro de 1918, o conselheiro Rodrigues Alves estava gravemente enfermo para assumir a Presidência e Delfim Moreira teve que partir para o Rio de Janeiro, onde assumiria a rédeas do governo. Naquele momento, sua família e amigos já receavam por sua precária saúde.

Dois anos depois, na noite de 30 de julho de 1920, eram, mais ou menos, 8 da noite, quando começaram a correr pela cidade insistentes boatos a respeito da saúde de Delfim Moreira. Alguns diziam que ele havia piorado. Outros afirmavam que não passaria daquela noite, tão grave era o seu estado. Por toda parte, notava-se um movimento incomum. No semblante dos moradores, uma aparência aflita denunciava que algo estava prestes a acontecer.

Funeral de Delfim MoreiraForam avisados, então, parentes e algumas pessoas mais íntimas da família, que Delfim Moreira encontrava-se em seus últimos momentos. Segundo informou o Dr. Abreu Azevedo, seu médico assistente, desde sábado o presidente encontrava-se em um estado gravíssimo. Nos quatro dias seguintes, seu quadro piorou, até que entrou em coma.

Antes de duas da tarde, ainda havia esperanças. Nos momentos que se seguiram, a esposa de Delfim Moreira continuou sentada à esquerda do enfermo, bem junto à cabeceira e soluçava, cheia de dor. À direita, sua filha, Antonieta, deixava cair as lágrimas sobre a cabeça de seu pai.

Às duas, alguém anunciou o falecimento às pessoas que se encontravam nos salões. O cônego Calazans, que já havia feito orações ao lado do enfermo, voltou ao quarto para dar-lhe a última bênção.

O leito foi rodeado pelos parentes mais próximos, entre os quais o seu sogro, o Cel. Joaquim Inácio Ribeiro; o Cel. Francisco Moreira da Costa, seu irmão; além dos filhos, Antônio e Delfinzinho.

Dona Maria Cândida Ribeiro, mãe de Delfim, quis beijá-lo, mas suas amigas impediram-na, receosas de seu estado de nervos e sabendo que ele já não estava mais vivo. Por conseguinte, a velhinha voltou para o seu quarto, enquanto dizia: “A gente que vive tanto assim, é só mesmo para sofrer.” Nesse momento, lágrimas caíram de seu rosto.

A esposa do Presidente, que não havia se afastado um único instante do leito de seu marido, tomou o crucifixo nas mãos e colocou sobre os lábios, já sem vida, do companheiro. Nesse momento, o Coronel Joaquim Inácio também acendeu uma vela e colocou entre as mãos frias e quase rijas do genro. “Perdi um amigo.” – disse ele, antes de deixar cair a cabeça sobre as mãos e chorar como uma criança.

O cadáver do Presidente foi vestido pelos senhores José Raposo de Lima, José Soares Brandão e Pergentino Dutra, auxiliados por seu amigo e fiel empregado, Athayde Franco, cuja dedicação a Delfim sempre foi conhecida por todos.

Os habitantes foram convidados para o sepultamento que partiria de sua residência às 5 horas da tarde. A esposa, entretanto, pediu insistentemente para que aquele corpo, já sem vida, ficasse ao seu lado por mais algumas horas. Por esse motivo, o enterro foi remarcado para 8 horas da manhã do dia seguinte, quando o cortejo passaria pelo fórum.

Durante toda a noite, foi grande o número de pessoas que procuraram a residência da família Moreira para levar as condolências. Todos que ali passavam, permaneciam alguns minutos diante do rico caixão em forma de prisma octogonal, forrado de cetim branco, tendo três grandes alças de cada lado.

Às sete e meia da manhã, já era grande o número de pessoas que acercavam as imediações da residência do Dr. Delfim Moreira. O cortejo atrasou cerca de uma hora, por conta do horário do primeiro trem da Rede que trazia autoridades de alta representação.

O 8º Regimento de Artilharia Montada, aquartelado na vizinha cidade de Pouso Alegre, desembarcou do trem no horário previsto. Ao chegar à praça Delfim Moreira, a Guarda de Honra do Regimento adentrou o jardim da residência do Presidente conduzindo duas coroas de flores. Uma delas, oferecida pelo Ministro da Guerra.

Eram 9 horas da manhã, quando saiu o féretro do Dr. Delfim Moreira. O caixão foi conduzido por seis membros da família: Antônio Moreira Ribeiro (filho); os Coronéis Francisco Moreira e Antônio Moreira (irmãos); Cel. Joaquim Inácio (sogro); Cel. Francisco Andrade Ribeiro e Cel. Theophilo Andrade.

Logo à saída do portão, o Sr. Pedro Moreira (irmão), tomou uma das alças do caixão e o mesmo fizeram outros cavalheiros da sociedade. Começou, então, nesse momento, a ser muito disputadas a alças por pessoas do povo que queriam prestar-lhe as últimas homenagens.

Ao passar em frente ao Fórum, o Sr. José Del Picchia esperava a passagem do féretro com seu equipamento cinematográfico, com o qual já havia captado alguns trechos nos arredores do velório.

Na Igreja Matriz, foi feita a encomendação pelo Cônego Calazans, Vigário da Paróquia, e rezada a missa pelo Padre José Dias. Em seguida, o cortejo adentrou o Fórum, onde discursou o Dr. Halim Phares, em nome da colônia Síria. Bem na entrada, foram deixados livros para que os visitantes assinassem. O edifício foi transformado em “câmara ardente” e, ali, o corpo repousou por algumas horas com as paredes completamente forradas de crepe e guarnecidas com flores e panos, o que deu uma impressão tétrica ao recinto. Tal trabalho foi organizado por José Del Picchia e Pergentino Dutra (Pingulu).

Digitalizado em 26-01-2013 10-31 (41)Duas e pouco da tarde, chegou à estação um comboio com representantes do governo. As cerca de 60 autoridades se dirigiram ao Fórum sem mudar os trajes. Um deles, Paulo de Frontin, prefeito do Rio de Janeiro, colocou-se defronte ao corpo para realizar uma oração, enquanto era observado por diversos repórteres da capital.

O enterro estava marcado para as cinco horas da tarde. Uma comissão responsável pela cerimônia colocou, enfileirados, meninos e meninas das escolas públicas e soldados do regimento. Tais alas, ocuparam boa parte da Rua Cel. Joaquim Inácio, quando o caixão passou pelo local, levado pelo ex-presidente Wenceslau Braz e outros representantes do Governo Federal. Ao todo, poderiam ser contadas cerca de 5000 pessoas, sendo 500 delas de fora. Seguindo o funeral, a Lira Nova Aurora e a Corporação Tiradentes acompanharam o trajeto, tocando marchas fúnebres.

O corpo do Dr. Delfim Moreira foi sepultado no jazigo da família, onde estão os restos mortais do Major Antônio Moreira da Costa, seu pai. Em seguida, diversas personalidades proferiram derradeiras homenagens e a cidade adormeceu sem seu mais ilustre morador.
(Adaptação de uma reportagem do Correio do Sul)

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