O que une a bela e mágica Tiradentes com a sonhadora e visionária Santa Rita

“Charmosas casinhas cercadas por montanhas e uma igreja verdadeiramente magnífica: esse é o tipo de lugar onde os sonhos são realizados”, diz a reportagem da revista americana Departures ao se referir a Tiradentes como a cidade mais bela do Brasil.

Localizada na região do Campo das Vertentes, Tiradentes é reconhecida mundialmente pelo seu extraordinário patrimônio histórico. Com sete mil habitantes, se reinventou com o fim da extração do ouro de aluvião (encontrado na superfície) e com o esgotamento da prata no final dos anos 80. Além do riquíssimo conjunto arquitetônico, formado por casarões do século XVIII, por igrejas magníficas, chafarizes que também serviam como parlatórios e calçamentos em pedra capistrana, atrai turistas por sua culinária sofisticada que mistura tendências cosmopolitas a toques da cozinha regional e por seus variados eventos culturais.

O grande charme da cidade conectada a São João Del Rey por uma antiga maria fumaça é que o local permaneceu “congelado” até pouco tempo. Não havia turistas, comerciantes, imprensa, nem cineastas que usariam suas ruas e casarões em filmes e novelas de época. O local não passava de um vilarejo com calçamento de pedras singulares que guardava a história de um tempo em que a cultura popular gravitava em torno da Igreja, mantida por garimpeiros e que empregava a mão de obra escrava em enorme quantidade. Entre senhores e padres com altares cobertos de ouro que abrigavam santos sacrificados de todas as formas, africanos construíam chafarizes, casarões e igrejas, alheios ao sonho de liberdade dos Inconfidentes, dentre eles Tiradentes, nascido na cidade que hoje leva o seu nome.

Mas o que uma cidade como Tiradentes, com os olhares voltados a um passado distante e dedicados à promoção de seu patrimônio histórico teria em comum com Santa Rita do Sapucaí, município que emprega boa parte dos seus esforços na geração de alta tecnologia? A resposta está em um movimento articulado há alguns anos na busca de melhorias da qualidade de vida de sua população, através do incentivo à economia criativa.
Quando um grupo de santa-ritenses, articulados pelo professor Wander Wilson Chaves, se uniu para criar o movimento “Cidade Criativa”, a tendência cooperativa que marcou a cidade em momentos de comemoração (com os carnavais), adversidade (como aconteceu com as enchentes) ou transformação (no desmonte do esguicho, fundação das escolas e criação do Vale da Eletrônica) passou a ser empregada na cultura, nas artes e na geração de conhecimentos ligados à valorização humana. Um movimento que é de todos, mas que não é de ninguém. Que alavanca e inspira projetos, fazendo de seus colaboradores os grandes protagonistas.

O que vimos, de lá para cá, foi a comunidade santa-ritense descobrir sua vocação para a produção de eventos de grande porte (consolidados pelo Bloco do Urso que chegou um pouco antes), festivais de música, artes e culinária, pela produção artística das mais diferentes naturezas, geração de oficinas, coletivos e empresas, e pelo fortalecimento de uma expertise tão antiga quanto os 127 anos do município: a hospitalidade de seus habitantes.

Hospitalidade! Esta palavra que resume tudo. Aí está a essência do acordo de cooperação firmado entre os prefeitos de Santa Rita do Sapucaí e Tiradentes. O que une uma comunidade que conserva um patrimônio de mais de trezentos anos a outra que começou há pouco mais de sessenta a explorar um incipiente segmento tecnológico são as pessoas que ocupam esses locais. Os habitantes sentem-se responsáveis por suas comunidades e trabalham pelo bem delas. Este é o ponto de convergência dos dois municípios. Por mais distantes que pareçam as realidades, uma comunidade tem muito a aprender com a outra e ambas decidiram unir forças para tornar seus visitantes e conterrâneos mais felizes. É o Cidade Criativa saltando sobre as montanhas da Mantiqueira.

De um lado, existe em Tiradentes alguns dos maiores e mais consagrados festivais de Culinária do país (um deles teria consagrado Alex Atala), uma Mostra de Cinema que anualmente atrai milhares de turistas, o Fórum do Amanhã, eventos mensais voltados à qualidade de vida e um conhecimento extraordinário em preservação do patrimônio histórico. De outro, vemos no Vale da Eletrônica uma inegável vocação tecnológica e educacional, uma já consolidada experiência na criação de eventos incríveis como o HackTown, Cidade Criativa, Bloco do Urso, Vale Music, Floydianos, Rock and Rango e de outras tantas atividades que fazem da cidade motivo de interesse e entusiasmo.

Para colocar em prática o projeto de colaboração mútua, dois núcleos (daqui e de lá) foram criados e as prefeituras implementaram missões de reconhecimento: a primeira em Tiradentes e a segunda em Santa Rita. O que veremos daqui em diante será o fomento de um plano de atuação para que os municípios juntem forças, explorando as suas inúmeras potencialidades.

A expectativa é vermos, daqui para a frente, a presença de missões provenientes de nossa “Cidade Irmã” com o objetivo de enriquecer as atividades produzidas no “Vale da Eletrônica” e que o mesmo se torne rotina no “Campo das Vertentes”. Se utopia pode ser interpretada como uma referência que nos inspira na busca da felicidade, continuamos no caminho certo.

(Por Carlos Romero Carneiro)

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